A Internet é a nova eletricidade

Prof. Dr. Adriano Mauro Cansian

Em 2017, a revista The Economist, uma das mais conceituadas publicações mundiais, trouxe um artigo intitulado “O recurso mais valioso do mundo não é mais o petróleo, mas os dados“. Desde então a frase “Dados são o novo petróleo” tem sido tema de muitas palestras, artigos e discussões. Mas, se na economia os dados são realmente o novo petróleo, seria correto afirmar que, em se tratando da sociedade, a Internet é a nova eletricidade?

Em 11 de agosto passado, o Secretário de Agricultura dos EUA, Tom Vilsack, anunciava um plano de oito anos para investir US$ 100 bilhões na implantação de banda larga em áreas rurais e carentes sem acesso à internet de alta velocidade. Na oportunidade ele disse: “A Internet de banda larga é a nova eletricidade”. O Secretário fez esta comparação porque, no início do século XX, o governo federal americano reconheceu que sem acesso à eletricidade a preços acessíveis, os americanos não poderiam participar plenamente da sociedade e da economia moderna. E, por este motivo, fez investimentos gigantescos para levar a eletricidade a todas as áreas urbanas e rurais, por volta de 1930.

Realmente, quando se vai a um estabelecimento comercial ou a um consultório médico, você não se pergunta se há energia elétrica lá, porque é algo que se espera que exista, razoavelmente, em todos os lugares. Tal qual a água encanada, a energia elétrica faz parte da infraestrutura mínima que se espera encontrar, de forma que não pensamos muito se ela estará lá, onde quer que estejamos indo. Apesar de estarmos evoluindo, infelizmente, com a Internet ainda não é a mesma coisa.

Em 18 de agosto, quase ao mesmo tempo em que Vilsack fazia a célebre afirmação acima, o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (cetic.br), órgão do Comitê Gestor da Internet no Brasil, divulgava a pesquisa “TIC Domicílios 2020”, que há 16 anos traça um panorama do uso e dispersão da Internet Brasileira. Neste último estudo foi possível ver que o Brasil entrou na pandemia de COVID-19 com 1 em cada 4 pessoas sem acesso à Internet, e 18,9 milhões de domicílios sem rede ou computador. Segundo a pesquisa o Brasil tem 152 milhões de usuários de Internet e, pela primeira vez, o levantamento identificou uma proporção maior de domicílios com acesso à rede (83%) do que de usuários individuais (81%). Na comparação com 2019, o aumento foi de 12 e de 7 pontos percentuais, respectivamente. Contudo, as profundas desigualdades regionais e socioeconômicas que marcam a sociedade brasileira também estão presentes na vida online.

Classes mais altas, com maior escolaridade e mais jovens, apresentam as maiores proporções de usuários e há muitas disparidades quanto à qualidade da conexão de Internet nos domicílios e aos tipos de dispositivo utilizados para o acesso à rede. O relatório aponta que, durante a pandemia, atividades essenciais migraram para a Internet, mas persistem desigualdades no aproveitamento das oportunidades on-line. Por exemplo, a Classe C realizou mais curso a distância (18%) e estudo por conta própria (45%), mas ainda em proporções muito inferiores à da classe A. O preço da conexão permanece a principal barreira de acesso, mencionada pelos 5.590 domicílios pesquisados.

Mas, o leitor atento já deve ter percebido que há algo paradoxal nisso tudo. Se a Internet realmente é a nova eletricidade, por outro lado a disponibilidade da Internet depende da confiabilidade da energia. Sem energia a Internet se torna um grande vazio. Dados do Ministério de Minas e Energia dão conta de que ainda há 420 mil famílias sem energia elétrica no país, englobando cerca de 1 milhão de pessoas. Além disso, se avizinha do Brasil uma crise energética sem precedentes, ocasionada pela inércia e negligência do Estado em atacar o problema e pelas mudanças climáticas que causam escassez de chuvas e esvaziamento dos lagos das hidrelétricas, que são responsáveis por mais de 60% da geração de energia elétrica no país. Uma vez que há um consenso de que o acesso à Internet de banda larga é necessário para que as pessoas façam seu trabalho, participem igualmente do aprendizado escolar, dos cuidados de saúde, façam negócios, se relacionem com harmonia e permaneçam conectadas para poderem exercer plenamente a cidadania, a expansão do acesso à internet e à energia precisa ser feita simultânea e conscientemente sob pena de aprofundarmos as desigualdades digitais tanto para os negócios como para os cidadãos brasileiros e de vivenciarmos um apagão eletro-cibernético, em curto espaço de tempo. Ainda há muito a ser feito.