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Cibersegurança em Fusões e Aquisições: O Risco Silencioso de Herdar Brechas

POR:

Haline Farias

A princípio, No mundo de alto risco das fusões e aquisições (M&A), a devida diligência é um ritual sagrado. As empresas investem milhões para analisar balanços financeiros, contratos e passivos legais, buscando garantir que o ativo adquirido não seja um cavalo de Troia. No entanto, na era digital, uma das maiores ameaças permanece frequentemente na sombra, tratada como uma questão técnica secundária: a postura de cibersegurança da empresa-alvo.

Comprar uma empresa sem uma profunda due diligence de cibersegurança é como comprar uma casa magnífica sem inspecionar suas fundações, seu encanamento ou sua fiação elétrica. Por fora, a propriedade parece valiosa e robusta, mas, escondido nas paredes, pode haver um vazamento silencioso que ameaça inundar todo o imóvel. No cenário de M&A, esse vazamento é uma violação de dados não descoberta, um malware latente na rede ou uma cultura de segurança frágil que, uma vez integrada, pode comprometer toda a organização adquirente.

O risco em fusões e aquisições foi redefinido. Não se trata mais apenas de passivos financeiros, mas de passivos digitais. Herdar vulnerabilidades não é uma possibilidade, é uma certeza. A questão é a sua magnitude. Então, este artigo oferece uma análise estratégica sobre a cibersegurança em M&A, posicionando a due diligence de cibersegurança como um pilar não negociável do processo, e fornecendo um guia para avaliar, quantificar e mitigar os riscos cibernéticos que podem destruir o valor de um acordo.

O Preço da Confiança Cega: Riscos Catastróficos da Negligência em M&A

Ignorar a cibersegurança em M&A é uma aposta de alto risco com consequências que podem ecoar por anos, afetando finanças, reputação e operações. Os riscos vão muito além de um simples incidente de TI.

Herdar uma Violação de Dados Não Declarada

Este é o cenário de pesadelo. A empresa adquirente pode descobrir, meses após o fechamento do acordo, que a rede da empresa adquirida já estava comprometida. A aquisição da Starwood pela Marriott revelou uma violação antiga, descoberta após a fusão, causando multas regulatórias e graves danos reputacionais. A adquirente herda não apenas os dados, mas também a responsabilidade legal e financeira pela brecha.

Malware Latente e Ameaças Persistentes Avançadas (APTs)

Uma rede pode estar infectada com malware dormente ou ser o lar de um grupo de ameaça persistente avançada (APT) que estabeleceu uma presença de longo prazo. Afinal, durante a segurança na integração de TI, esses atores maliciosos podem usar a conexão entre as duas redes como uma ponte para se mover lateralmente e atacar os ativos mais valiosos da empresa-mãe.

“Dívida Técnica de Segurança” Impagável

Muitas empresas, especialmente startups e organizações em rápido crescimento, acumulam uma enorme dívida técnica de segurança. Contudo, isso se manifesta em sistemas legados sem patches, falta de controles de segurança básicos, configurações incorretas na nuvem e uma arquitetura de TI frágil. Portanto, corrigir essa dívida após a aquisição pode custar milhões, um custo não previsto que impacta diretamente o retorno sobre o investimento (ROI) do acordo.

Non-Compliance com LGPD/GDPR

A empresa-alvo pode não estar em conformidade com regulamentações de proteção de dados como a LGPD no Brasil ou a GDPR na Europa. A adquirente se torna responsável por essa não conformidade, enfrentando o risco de multas que podem chegar a uma porcentagem significativa de seu faturamento global. Assim, uma due diligence de cibersegurança rigorosa é essencial para identificar essas lacunas.

O Pilar da Decisão: Uma Robusta Due Diligence de Cibersegurança

Uma avaliação de segurança eficaz em M&A não é um checklist de TI preenchido em uma tarde. É um processo investigativo e multifásico que deve começar o mais cedo possível e continuar mesmo após o fechamento do acordo. Dessa forma, uma due diligence de cibersegurança completa é a única forma de obter uma visão realista do perfil de risco do alvo.

Fase 1 (Pré-Acordo): Avaliação de Risco Inicial

Nesta fase, o acesso à empresa-alvo é limitado. O objetivo é usar inteligência de fontes abertas e avaliações não intrusivas a fim de formar uma primeira impressão do risco.

  • Análise da Superfície de Ataque Externa: Mapear e analisar todos os ativos da empresa-alvo voltados para a internet (websites, servidores de e-mail, APIs). Ferramentas automatizadas podem identificar vulnerabilidades conhecidas, certificados SSL expirados e outras falhas de configuração óbvias.
  • Revisão de Políticas e Documentação: Solicitar e analisar documentos de segurança, incluindo políticas, relatórios de auditoria, planos de resposta a incidentes e certificações como a ISO 27001.
  • Entrevistas com a Equipe Chave: Conduzir entrevistas com CISO, CIO e líderes de TI para entender arquitetura, desafios, orçamento e maturidade da cultura de segurança da empresa-alvo.
  • Busca por Violações Passadas: Investigar a dark web e fóruns de hacking para encontrar menções à empresa-alvo, indicando possíveis violações de dados anteriores não divulgadas.

Fase 2 (Pós-Acordo, Pré-Integração): A Due Diligence de Cibersegurança Aprofundada

Uma vez que um acordo preliminar ou uma carta de intenções é assinada, o acesso geralmente se torna mais amplo, permitindo uma análise técnica profunda.

  • Testes de Invasão (Pentest): Primeiramente conduzir testes de invasão abrangentes, tanto externos quanto internos, para identificar vulnerabilidades que não são visíveis superficialmente. Isso inclui testar aplicações web, a rede interna e as defesas contra engenharia social.
  • Análise de Código-Fonte: Para empresas de tecnologia, a análise estática (SAST) e dinâmica (DAST) do código-fonte é crucial para identificar falhas de segurança na aplicação.
  • Mapeamento Detalhado de Ativos e Controles: Realizar um inventário completo dos ativos de hardware e software, e verificar a presença e a eficácia dos controles de segurança existentes (antivírus, EDR, firewalls, etc.). Esta é uma etapa crítica na avaliação de segurança.

Fase 3 (Integração): A Segurança na Integração de TI

A fase final e mais crítica é a unificação das duas organizações. É aqui que o maior risco em fusões e aquisições se materializa se não for gerenciado corretamente.

  • Desenvolvimento de um Plano de Integração de Segurança: Antes de conectar as duas redes, é essencial ter um plano detalhado. Com efeito de definir uma arquitetura de segurança de referência, um cronograma para migração de sistemas e um plano para unificar políticas e controles.
  • Princípio do Acesso Mínimo: A integração não deve ser um “big bang”. As redes devem ser conectadas gradualmente, através de zonas desmilitarizadas (DMZs) e com regras de firewall estritas, operando sob o princípio do menor privilégio.
  • Gestão de Identidades e Acessos (IAM): Unificar os sistemas de identidade é uma tarefa complexa e de alto risco. É preciso um plano claro para consolidar diretórios, aplicar MFA consistentemente e revalidar privilégios de acesso, assim evitando transferi-los sem revisão.
  • Monitoramento Intensivo: Durante e após a integração, a nova rede combinada deve ser colocada sob monitoramento intensivo. Ferramentas como SIEM e UEBA são cruciais para detectar atividades anômalas que possam indicar um atacante se movendo através da recém-criada “ponte” entre as redes. Desse modo, a segurança na integração de TI depende de visibilidade contínua.

Aspectos Jurídicos e Cláusulas Contratuais de Segurança

A mitigação do risco em fusões e aquisições exige proteções contratuais robustas no acordo de compra. Portanto, a equipa jurídica, junto com a equipa de segurança, deve incluir cláusulas específicas de “Representações e Garantias” de cibersegurança. Nessas cláusulas, o vendedor atesta formalmente a ausência de violações de dados materiais não divulgadas e sua conformidade com leis como a LGPD e a GDPR. Além disso, para reforçar essas garantias, as partes negociam cláusulas de “Indemnização”, que obrigam o vendedor a cobrir custos financeiros — como multas, processos judiciais e remediações — caso surjam violações pré-existentes. Ademais, reter parte do preço de compra numa conta de garantia (escrow) por um período determinado oferece um recurso financeiro imediato para cobrir passivos inesperados. Dessa forma, essas cláusulas transformam a due diligence de cibersegurança em um instrumento de negociação e proteção financeira para o comprador.

Quantificando o Inquantificável: Traduzindo o Risco Cibernético em Valor Financeiro

Um dos maiores desafios da cibersegurança em M&A é apresentar os resultados da due diligence de cibersegurança de uma forma que o conselho de administração e os líderes de negócios possam entender: em termos financeiros.

Não basta dizer que “a empresa tem 50 vulnerabilidades críticas”. É preciso traduzir isso em risco monetário. Modelos de quantificação de risco podem estimar o custo potencial de uma violação de dados (com base no número de registros, no setor e nas multas regulatórias) e o custo de remediação da dívida técnica de segurança (horas de trabalho, novas tecnologias necessárias).

Quando o CISO pode dizer ao CFO: “Nossa due diligence de cibersegurança identificou um custo de remediação de R$ 5 milhões e um risco potencial de multa de R$ 20 milhões devido a falhas na LGPD”, a conversa muda. O risco cibernético deixa de ser um problema de TI e se torna um fator na negociação do preço de compra, na alocação de garantias ou, em casos extremos, um motivo para abandonar o acordo.

Com certeza. Aqui estão as três novas seções para o artigo “Cibersegurança em Fusões e Aquisições: O Risco Silencioso de Herdar Brechas”, mantendo o mesmo estilo e profundidade dos parágrafos anteriores.

O Impacto em Seguros Cibernéticos

Uma fusão ou aquisição exige reavaliar imediatamente as apólices de seguros cibernéticos de ambas as empresas. Nesse hiato, a nova entidade combinada apresenta um perfil de risco drasticamente alterado, com superfície de ataque ampliada, novas tecnologias e mais funcionários. Por consequência, as apólices existentes podem se invalidar ou os prêmios aumentar substancialmente. Um dos maiores riscos está nas apólices “claims-made” (baseadas em reclamações), que cobrem apenas incidentes reclamados durante o período vigente. Dessa forma, se a empresa adquirida sofrer uma violação de dados antes do fechamento e a equipe descobrir isso depois da fusão, surgirá uma lacuna de cobertura complexa e custosa. Por isso, as seguradoras exigem uma due diligence rigorosa de cibersegurança como pré-condição para subscrever ou renovar a cobertura da nova entidade, tornando essa etapa essencial para gerenciar riscos e garantir a segurabilidade do negócio.

Simulações Práticas de Segurança e Testes de Integração

Além da análise de documentação e vulnerabilidades, uma avaliação de segurança madura deve incluir simulações práticas para testar a resiliência e a compatibilidade das equipes e processos. Portanto, realizar exercícios de “Tabletop” (simulações de mesa) antes da integração é fundamental, pois reúne líderes de segurança e negócios de ambas as empresas para enfrentar cenários de crise, como ataques de ransomware simultâneos. Esses exercícios revelam lacunas nos planos de resposta, falhas de comunicação e conflitos na cadeia de comando que não aparecem no papel. Ademais, para validação técnica, a execução de um exercício de “Red Team”, onde uma equipe simula uma intrusão ativa, testa a eficácia dos controles de segurança e a capacidade de detecção da equipe de defesa. Assim, essas simulações medem realisticamente a maturidade da segurança e a prontidão para uma integração de TI bem-sucedida.

A Cibersegurança como Pilar de Criação de Valor em M&A

A era de tratar a cibersegurança em M&A como um item secundário de um checklist acabou. Em um cenário onde a propriedade intelectual, os dados dos clientes e a continuidade dos negócios são digitais, a postura de segurança de uma empresa é um dos seus ativos (ou passivos) mais significativos. Herdar vulnerabilidades é inevitável; o que é opcional é a cegueira diante delas.

Na Resh, entendemos que a due diligence de cibersegurança não é um centro de custo, mas um mecanismo de proteção de valor. É o processo que garante que o ativo que você está adquirindo não se tornará o ponto de entrada para a próxima crise da sua organização. Uma abordagem proativa e investigativa da segurança transforma o risco de uma ameaça oculta em um fator gerenciável e quantificável.

Enfim, ao integrar uma due diligence de cibersegurança robusta em cada fase do ciclo de vida de M&A, as empresas não estão apenas se protegendo contra perdas catastróficas. Elas estão tomando decisões de investimento mais inteligentes, negociando acordos mais justos e estabelecendo as bases para uma integração segura e bem-sucedida. No final, a cibersegurança deixa de ser um obstáculo para se tornar um facilitador da criação de valor a longo prazo.

RESH

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